MUITOS SERÃO OS CHAMADOS PORÉM POUCOS OS ESCOLHIDOS -

Ditemos as principais passagens das últimas predicações de Jesus e tiraremos em consequência que as falsas avaliações provêm sobretudo das omissões e das referências apócrifas.

Quando ele quis dar testemunho de seu prestígio de filho de Deus em Jerusalém, pronunciou estas palavras:

“Eu sou aquele que meu pai enviou para dar-vos sua lei; quem quiser me seguir verá Deus. Eu caminho pela estrada da verdade e a luz resplandece em mim.

“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis. Isto quer dizer que Deus é uma ciência e que responde aos que trabalham.

“Estudai a origem dos males e as dos benefícios e reconhecereis a justiça de Deus.

“Afastai-vos do orgulho e dos tumultos da Terra para interrogar a Deus e ouvir o que vos responderá.

“Eu sou o filho de Deus, porém esta honra foi merecida por mim e vos digo: Todos os homens de boa vontade podem chegar a ser filhos de Deus.

“Não me pergunteis aonde vou nem de onde venho.

“Somente meu Pai conhece meu porvir, e meu passado permanece oculto para mim, enquanto o pó que envolve meu espírito se mistura com o pó dos mortos.

“Destruí em vós o homem velho e deixai falar o homem novo. Enquanto existir em vós algo do homem velho, as paixões serão mais fortes e o vento soprará sobre vossos projetos.

“Humilhai-vos diante de Deus e não procureis o domínio entre os homens.

“Arremessai para longe de vós as cousas inúteis e cumpri a lei do amor.

“Diminuí vossos gastos para socorrer os pobres; o que tudo tenha dado aos pobres será rico na presença de Deus.

“Levantai longe daqui vossa vivenda; posto que, vos digo, o homem é viajante sobre a Terra. Sua família espera-o; sua família o seguirá em outro lugar e terá ainda que trabalhar para reparar as perdas presentes.

“Não enfraqueçais vossa fé, com investigações estéreis,2 com uma passagem mais estéril ainda, mas praticai os mandamentos da lei de Deus e a luz chegará a vós, pois que a luz é um olhar de Deus.

“Todo aquele que cumpra a lei e deseje a luz, conquistará a ciência, não essa ciência banal que resolve todas as cousas deste mundo, senão outra ciência que tudo explica.

“Felizes os que compreendem estas palavras.

“Felizes os homens de boa vontade, o reino de meu Pai lhes pertencerá.”

Com estes sermões, alheios a toda a ortodoxia, os doutores da lei ameaçaram fechar-me as portas do templo.

Se o povo me houvesse parecido desejoso de conhecer a definição da ciência e da luz, das quais falava, eu teria desafiado a proibição e teria feito valer os direitos de um professor religioso que não atacava nenhum dos dogmas reconhecidos, porém as más disposições do povo me surpreenderam e resolvi retirar-me para Betânia.

Durante o período transcorrido entre a primeira defecção do povo e os atos atrozes de que o mesmo povo foi autor, Jesus não estabeleceu limites às suas expressões e o mesmo sentimento de sua elevação inspirava-lhe ímpetos de furor e profecias de desastres. Ele fustigava a seu gosto aos que chamava hipócritas e perversos, e apontava com antecipação, quase como para oprimi-los depois com o terror, os frágeis no amor, os indecisos na fé, os desconfiados, os ingratos, a toda essa massa de ignorantes e vis que haviam de oprimir seu corpo, semear a indecisão em sua alma e enfraquecer, quase, sua confiança em Deus.

“Sois sepulcros caiados, a ferrugem e os vermes corroem seu interior.

“Possuís roupas, os pobres encontram-se desnudos, e vós rides quando as crianças choram de frio e de fome.

“Andais anunciando em altas vozes vossas obras, entretanto no interior de vossas casas escondem-se a orgia e o delito.

“Denunciais ao mundo a mulher adúltera e enganais a Deus com as aparências de castidade, enquanto vosso espírito encontra-se turbado por desejos impuros e ambições desonestas.

“Condenais o vício dos pobres, porém guardais silêncio a respeito dos escandalosos excessos dos imperadores e do vergonhoso servilismo dos cortesões.

“Chamais a vós mesmos os sacerdotes de Deus, os privilegiados do Senhor, e amontoais riquezas sobre riquezas e incensais aos déspotas e conquistadores.

“Eu sou o Messias, filho de Deus, e vos anuncio que este templo será destruído, que não ficará pedra sobre pedra de vossos edifícios; uma nova Jerusalém se levantará sobre as ruínas da antiga; vossos descendentes procurarão o lugar onde se exercitava vosso poder e os fastos de vosso orgulho se desvanecerão como uma sombra.

“Quer me decreteis honras, quer me condeneis à morte, meu nome sobreviverá aos vossos e a lei que trago prevalecerá sobre a que vós predicais, sem cumpri-la.

“Hipócritas, que tendes a boca cheia de mel e o coração cheio de ira e de ódio. Déspotas, assassinos sem fé, vil manada de escravos encarcerados durante a noite, covil infecto de animais venenosos, desprezível caterva de gente embrutecida e depravada, sois o mundo que está por terminar e eu proclamo um mundo novo, uma terra prometida, a verdade, a justiça, o amor. Intérpretes de um Deus vingativo, implacáveis provedores da morte, a ciência da imortalidade dir-vos-á a todos que Deus é bom e que a vida humana tem que ser respeitada.”

No meio de outros excessos de linguagem, Jesus acusava os pobres de seguir uma miséria aviltante, sem combatê-la com o trabalho e com as economias do trabalho.

“Desejais o descanso e passais o tempo no ócio e na embriaguez. Detestais vossos patrões, porém invejais sua fortuna, e se vos encontrásseis em seu lugar, procederíeis como eles, porque não possuís a fé que proporciona a coragem no meio da pobreza e a modéstia no meio da opulência.

“Queixai-vos do orgulho e da crueldade dos ricos, e eu digo-vos que vós tendes a alma encouraçada, o espírito prevenido, próprio das naturezas baixas e ciumentas.

“Os que entre vós estão compreendidos no nada das riquezas e na lista dos pobres, serão os primeiros no reino de meu pai; mas, repito, embora muitas vezes o tenha dito: Muitos serão os chamados, porém poucos os escolhidos.

“Opróbrio para os comerciantes de má-fé; o roubo, sob qualquer nome que se disfarce, é uma falta ante as prescrições mais elementares da lei divina; somente a restituição e a caridade podem descarregar a consciência do depositário infiel, do mercador desleal, do falsário, do homem ambicioso e injusto.

“Pecadores de todas as condições, homens de todos os tempos, a moral encerra-se nestas palavras: Fazei aos outros o que quereríeis que fizessem a vós.

“Para trás, traficantes das cousas santas no templo do Senhor!

“A casa de meu Pai é uma casa de oração e vós a converteis em covil de ladrões.

“Retirai-vos, retirai-vos, vos digo, deste lugar de paz e de retiro.

“Os sacrifícios de carne são ímpios; a prece é um perfume da alma, um brado do coração, um arrependimento do espírito, que os tumultos do mundo não poderão aproximar-se-lhes sem afastá-lo de Deus.

“Ai de vós e de todos os que desviarem de seu verdadeiro objetivo as obras do Criador! Ai de vós e de todos os que converterem a religião em um meio para adquirir fortuna temporal!”

A voz de Jesus tomava então uma entonação vibrante e seus gestos tornavam-se ameaçadores. Em nenhuma época de sua vida de apóstolo encontrou tanta amargura em sua alma e tanta indignação em seu espírito, ao revelar as vergonhas da Humanidade, armando-se contra ela com as prerrogativas que lhe davam a sua missão e a ciência divina.

“Sois fracos e ferozes. À ignorância da juventude ajuntais a perversidade do orgulhoso, do avaro, do ambicioso, do dissoluto, do assassino.

“Combateis pela glória alheia! — Que é essa glória?

“Uma espantosa demência, um monstruoso assassinato.

“Adorais um Deus! — Quem é esse Deus?

“Uma imagem formada por espíritos em delírio, um ídolo frequentemente furioso, sempre fácil de tranquilizá-lo, acessível a todas as queixas, disposto a todas as concessões. Um ídolo adornado com vossos próprios vícios.

“Os altares de vosso Deus estão inundados de sangue e vós lhe dedicais até sacrifícios humanos.

“Ah! — Causai-me horror! — Empenho-me por adiantar o momento de minha morte, sabendo bem que ela será dolorosa, pois somente depois dela eu me verei livre de vosso vínculo, rota uma fraternidade que me é odiosa, e entrarei na glória de meu Pai.

“Poreis em desnudez meu corpo para alegrar vossos olhares, submetereis à sorte minhas vestes para que possa dizer-se que nada do que é meu deixastes a meus servos; meus servos desaparecerão e morrerei abandonado pelos homens, pois que está dito: o Messias morrerá ignominiosamente; o Céu e a Terra guardarão silêncio.

“Não penseis que eu temo a morte; mas assusta-me vosso porvir.

“Não penseis que eu abrigo a intenção de livrar-me de vossos ódios, mas compreendei e recordai isto: Eu voltarei depois de minha morte. Os que me reconheçam serão perdoados. Compete ao Filho de Deus levantar o pecador e abençoá-lo, facilitar-lhe o arrependimento e proteger os fracos.”

Irmãos meus, a palavra de Jesus torna-se sentenciosa e profética à medida que ele se vai aproximando do termo de sua vida terrestre, ao mesmo tempo que suas afirmações se vêem livres prontamente do temor pelas perseguições e pelas preferências de seu espírito em favor dos deserdados. Anunciando ele mesmo a ressurreição de seu espírito e prometendo sua participação nos progressos da família humana, ditava sua sentença de morte. Seus amigos, desde logo demasiado tímidos e descoroçoados pela confusão dos espíritos, sentiram-se, sob todos os pontos, impotentes diante desta terrível imputação.

“Declarou-se Deus. Todos ouviram. Tem que morrer.”

Determinemos a confusão dos espíritos e façamos distinção entre os partidários e os defensores de Jesus.

Os partidários de Jesus amavam o homem e teriam querido salvá-lo do perigo inerente às prerrogativas de Messias. Os defensores de Jesus deduziam a prova de sua superioridade das demonstrações do apóstolo; mas esta superioridade cada um a explicava a seu modo e a lógica era sacrificada com frequência, ante o espírito de partido e de disputas.

Uns ignoravam a doutrina que havia proporcionado a Jesus suas mais formosas definições da grandeza de Deus e o tomavam por sábio, cuja vida havia transcorrido no estudo das leis orgânicas e das dependências destas leis. Admiravam o ardente professor de moralidade tão pura, mas rechaçavam tudo quanto lhes parecia sair do círculo dos descobrimentos permitidos à inteligência do homem. O destino humano, depois da morte corporal, era para eles um mistério que ninguém podia penetrar. Atacando este mistério, eu me convertia em derrogador, a seus olhos; sustentando minhas convicções, volvia-me um fanático por um erro concebido no paroxismo da vaidade. Outros conheciam as fontes de minha ciência, porém não reconheciam a esta ciência o poder de estabelecer demonstrações tão absolutas e classificavam de orgulhosa pretensão minhas alianças de espírito com espíritos mais elevados.

Os primeiros tinham a franqueza de suas opiniões, os últimos misturavam à consagração de um fato inegável as reticências de espíritos acanhados e ciumentos. Os defensores reais de Jesus eram ao mesmo tempo seus partidários mais instruídos. Já nos referimos a José de Arimatéia, Nicodemus, Marcos e Pedro. Nos últimos dias que permaneci em Betânia, Pedro e José receberam de mim instruções definitivas a respeito do que tinham que fazer depois de minha morte. Demonstrar, cada vez mais, minha mensagem divina a estes dois depositários de minha última vontade, era minha constante preocupação.

“Que jamais desmereçam no cumprimento de sua missão, dizia eu, mas que estejam convencidos de minha ressurreição espiritual, e esta doutrina, no seu princípio, fraca como eles, se consolidará. — Oh sim! — O porvir terá a colheita de tudo o que eu ajuntei e pus em evidência. O porvir verá generosos espíritos combater o que eu tenho combatido e pôr em prática o que ensino, e eu me converterei em seu apoio, como os que vieram na minha frente o fizeram para comigo, a fim de dar perseverança à ação, a calma e a força no meio dos vendavais.

“Oh, sim! Sairei vitorioso da morte e revelarei perante o mundo as provas de minha imortalidade.”

Fonte: Vida de Jesus Ditada Por Ele Mesmo

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https://www.youtube.com/watch?v=5IUM9Vo-Lt8