TEMPOS DIFÍCEIS -

    E chegou o tempo da Estrela* voltar à Terra. Dias antes, reuniu-se com muitos dos seus irmãos, que também brilham nos Céus, com muitos dos seus planetas e com satélites destes para que tudo ficasse ajustado. A Estrela sorria de amor, pois vinha para dar a mão mas sofria por antever toda a dor de baixar ao inferno terrestre (ao mundo das trevas) e quanto iria ser incompreendida, deturpada e injustamente acusada.

     Entretanto, por esses dias, na Terra, havia grandes aflições. A Mãe Natureza tinha-se revoltado e, acima de tudo, era instrumento da Mão Divina que amorosamente bate para corrigir.

     A gente da Terra estava confundida e apavorada porque a terra tremia e não havia força humana que não temesse tal poder; porque as águas subiam e não havia força humana que detivesse tal poder; porque havia pestes e guerras e não havia paz ou cura humana que sanasse tais males.

     As multidões olhavam apavoradas, a terceira queda do império romano**, caíam os edifícios porque a terra sacudia e as águas subiam, pois o calor aumentava e os gelos derretiam. O fogo, que a Terra vomitava, mais aumentava a desgraça. Os governos não sabiam o que dizer. As igrejas só sabiam repetir. O orgulho humano estava abatido. Se um continente se separava em dois, em muito mais opiniões se dividia a humanidade. Ninguém ao certo sabia o que queria, o que fazer ou esperar. Parecia não haver Terra para viver nem Céu para esperar porque o homem estava entregue a si próprio. Havia choros, lamentações e presságios de dias ainda piores.

     Frequentemente juntavam-se multidões em espaços públicos para fugirem das casas que caíam, para encontrarem um pouco de calor humano ou para esperarem ainda o consolo, a direção das autoridades políticas, religiosas e culturais.

     Numa dessas ocasiões, um Ser de aspecto humano, mas belo como um anjo começou a falar. Na verdade ninguém reparou donde ele tinha surgido. Jamais tinham visto aquela face nem sabiam donde vinha, nem o seu passado ou quem era. Alguns sabiam mas calavam-se. Como os seus olhos viam mais e os seus ouvidos ouviam mais do que os outros, tinham-no visto descer dos Céus (entre coros de anjos e ribombar de trovões) até à Terra e, de Estrela invisível que era aos olhares profanos, materializar-se em figura humana normal.

     Ninguém percebeu ou soube explicar por que, quando ele começou a falar, se fez em todos um silêncio e todos se puseram a escutar. Para uns, a sua voz era firme e poderosa. Para outros, era serena e meiga. Só alguns sabiam (mas calavam) que era ambas as coisas.

     Com a sua voz firme e serena, poderosa e meiga, começou a dizer:

     “Irmãos, homens e mulheres, amigos, companheiros, amados do meu coração: bem vejo que estais confundidos e assustados, que as desgraças vos atemorizam; que as catástrofes vos revoltam; que as ruinas vos desesperam. Bem vejo e bem o sei. Contudo, porque vos admirais? Porque vos confundis e revoltais? Acaso esquecestes as palavras das escrituras, dos santos, dos profetas e dos messias?”

    Voltando o rosto para o Oriente, evocou uma frase de Gautama, o iluminado: “Ó vós que sofreis, ficai sabendo que sofreis por causa de vós mesmos!”, e, volvendo o rosto para o Ocidente, lembrou as palavras de Paulo, o apóstolo de Jesus: “Tudo o que semeardes colhereis!”

Então continuou dizendo: “Amigos, irmãos – sim, irmãos! – se vos confundis, se vos surpreendeis e revoltais, não tendes razão para isso.

Naquelas palavras que vos lembrei e que, em teoria ou na prática, haveis desprezado, tendes a resposta: estais colhendo o que semeastes, estais sofrendo por causa de vós memos. Ora, irmãos, amigos – assim amigos e irmãos! – o vosso Pai;  que está fora e dentro de vós, quer que sejais perfeitos como ele é perfeito; quer o vosso bem que é a vossa purificação; quer que façais o que é justo, bom, sábio e amoroso porque só na verdadeira virtude pode residir a perfeita alegria. Vós julgastes poder construir a vós mesmos e a um mundo sem justiça, sem amor nem real sabedoria, sem harmonia e pureza, sem misericórdia ou perdão, sem vontade do bem  e sem ordem. Tudo isso está escrito no recôndito do vosso ser, e muitos o repetiram através das idades, mas vós fizestes exatamente o contrário. Por isso só com dor aprendereis. Se aprender é para vosso bem, então a dor castiga-vos para que aprendais, pois os sofrimentos de anos não são comparáveis à  bem-aventurança e à glória que alcançareis quando tiverdes aprendido.  Vós, contudo, ainda não aprendestes. Assim o vosso mundo, que edificastes sem amor e sem justiça, cai sobre vós e continuará caindo. No fundo, é a bondade de Deus, que o ordena porque tendes que vos humilhar na vossa fraqueza humana para redescobrirdes o Divino em vós e fora de vós, e a ele vos religardes. Essa é a essência da religião.

     Irmãos, amigos – sim, amigos e irmãos! - se fordes capazes, olhai humildemente para vós e vede. Tudo o que tendes feito não passa muito de escória. Tudo o que tendes desejado não passa mais que sucata. Tudo o que haveis edificado transforma-se em ruína e pó. Tudo o que haveis sentido enche o mundo de trevas. Tudo o que tendes pensado não é mais que refugo. Tudo o que humanamente julgastes poder não é mais que fraqueza e orgulho, que tem de ser humilhado, para que sejais verdadeiramente fortes e poderosos. Só o sereis, todavia, quando vos unirdes ao poder que sustenta tudo o que existe,  ao poder que é Deus, que é o espírito do Universo e de vós próprios. Sim, a Terra tem de mudar, mas só o amor de DEUS renovará a Terra.

     Depois de  dizer estas outras palavras, o Ser começou a instruí-los sobre as verdadeiras virtudes ou qualidades, sobre o correto pensar, sentir e agir, sobre a verdadeira liberdade, a sabedoria real e o amor divino e puro. Até que, a certa altura, prometendo que mais coisas lhes diria noutras ocasiões, o Ser se calou. Passando pelo meio de alguns que pareciam conhece-lo, desapareceu sem que mais  ninguém o visse. Estes, interrogados, nada disseram.

     A multidão não sabia o que pensar. Uns afirmaram que tinham sidos tolices de um louco, muitos ficaram sem opinião definida, mas outros sentiram que o seu coração se tinha enchido de doçura e de esperança que não podiam explicar e nunca tinham sentido senão naquele fim de tarde, depois do Sol desaparecer e de voltar a escuridão.

     Para esses a noite não seria igual às anteriores, porque não era noite completa; tinham ficado, sem que o soubessem explicar, uma paz sublime e uma doce luz.

Jesus

* Senhor Maitreya

** Simboliza o poder temporal

Fonte: Livro A Grande Revelação, Ponte Para a Liberdade.

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