OS DIAMANTES FATÍDICOS -

A desmedida ambição humana, filha dileta do seu egoísmo exacerbado, responde por inúmeras calamidades de todo porte que pesam na economia moral da sociedade terrestre. O ser humano, preservando os atavismos do estágio primário por onde transitou, aferra-se tenazmente aos interesses mesquinhos de supremacia e de predominância em relação a tudo e a todos, trabalhando com a mente fixa nos mentirosos triunfos temporais, como se a vida fosse apenas o desfrutar das paixões e o permanente campeonato da luxúria a que se entrega. Não medindo esforços nem reflexionando com sensatez, exorbita na conquista dos valores que corrompem os sentimentos, embora exalcem a situação no destaque do grupo social, vivendo inquieto porque sem harmonia interior, em decorrência da falácia a que se entrega. Preocupado em acumular haveres que passam de mãos, e dominado pelo servilismo da sensualidade, engana e trai com desfaçatez, ferindo a emoção e a dignidade de quantos se lhe apresentam como obstáculos aos sórdidos objetivos que cultiva. A sociedade na quai exerce posição relevante aceita-o com cinismo, mascarada de um júbilo que está distante de ser real, porque conhece os escusos caminhos que conduzem à situação invejável, já que a maioria dos seus membros transitou por idênticos meandros. Embora a cordial e diplomática postura no relacionamento que é mantido, não existe entre os seus membros a saudável fraternidade nem a confiança que seria desejável, a fim de que a harmonia plenifique-os conforme seria ideal. O intercâmbio afetivo é quase nulo, porquanto se evita aprofundar os interesses emocionais, desde que a suspeita sistemática assinala-os, em razão de cada qual desejar ocupar o espaço mais alto no qual o outro se encontra momentaneamente. Não poucos indivíduos nesse estágio recordam-se da transitoriedade orgânica, dando a impressão de que a sua felicidade é sempiterna, sendo eles seres especiais que os deuses do Olimpo elegeram em caráter excepcional. Conceito vão, enganoso, porque ninguém foge da argamassa celular em que se encontra temporariamente, desde que se encontra peregrinando pelo arquipélago terrestre no seu processo de evolução. O engodo da matéria que a muitos seduz, desfaz-se, não poucas vezes durante o próprio trânsito carnal, mas sempre após o cessar das pulsações cardíacas, logo sucedido pelo fenômeno biológico da morte. A indestrutibilidade é condição do Espírito e não do corpo que o veste. A viagem terrestre é de aprendizagem, de educação, de desenvolvimento dos valores internos, jamais constituída de plenificação, de felicidade sem jaça, porquanto, em qualquer educandário onde se encontre o indivíduo, este experimenta somente a alegria da oportunidade, a bênção que recolhe no estudo, preparando-se, sem dúvida, para a finalidade que será conquistada, quando, então, avaliará os resultados do esforço empreendido. Enganam-se todos aqueles que situam a plenitude no complexo fenômeno orgânico e nos quiméricos bens que amealham. Os tesouros reais são, conforme acentuou Jesus-Cristo, aqueles que os ladrões não roubam, as traças não comem, nem a ferrugem gasta. Trata-se, portanto, dos dons do Espírito, dos valores morais, dos inalienáveis recursos da alma. Em razão da beleza de que se revestem as gemas raras, do que significam em moedas que se lhes atribuem, através dos tempos têm exercido um fascínio apaixonante nas criaturas que lutam por acumulá-las a qualquer sacrifício. Para a sua conquista investem-se fortunas que poderiam ser superiormente utilizadas destruindo a fome, as doenças, a ignorância, a miséria moral que dominam no mundo, e não obstante, são transformadas em fulgurantes pedras que jazem em estojos delicados e de alto preço, mortas em cofres fortes, para serem usadas uma que outra vez, provocando inveja e despertando ressentimentos, mais embelezando, por um momento, com o brilho da vaidade os seus transitórios possuidores. Quando portadoras de pureza e perfeição, que as tornam mais raras, são transferidas de uma para outra pessoa, de uma para outra geração, algumas portadoras de tragédias, de crimes que foram cometidos para possuí-las, tornando-se fatídicas para os seus possuidores... Embora o drama que narramos nas páginas a seguir tenha causas profundas que se enraízam nas reencarnações transatas, os diamantes faiscantes que facultarão a execução de alguns crimes, desempenham um papel importante em nossa história real, que sofreu necessárias adaptações e modificação para evitar que sejam identificadas as personagens que constituem o nosso romance, algumas das quais prosseguem na sua vilegiatura. O nosso desejo é demonstrar que a força da Lei de Causa e Efeito é invencível, não permitindo que ninguém a defraude, por mais habilidoso que seja, ou por mais perverso, ou por mais cínico, desde que, para onde fuja defrontá-la-á inapelável, exercendo a missão providencial para a qual foi programada. O método eficaz e único para proporcionar a felicidade real, sem dúvida, é o exercício da consciência reta, a atividade correta e a conduta moral sem jaça. A Vida cobra todos os delitos que sejam praticados contra os seus códigos soberanos. A única alternativa, pois, que resta ao ser humano, é respeitá-la em todas as suas expressões.

Águeda (Piedade, Espinhei, Portugal), 20 de outubro de 2003.

Victor Hugo