O ROBÔ -

Por que os sufistas (praticantes do sufismo, movimento místico islâmico) dizem que o homem é uma máquina? O homem é uma máquina, é por isso. O homem, como ele é, é totalmente inconsciente. Ele nada mais é do que seus hábitos, a soma total de seus hábitos. O homem é um robô. O homem não é um homem ainda. A menos que a consciência faça parte de seu ser, o homem vai continuar a ser uma máquina. É por isso que os sufistas dizem que o homem é uma máquina. Foi através dos sufistas que (George) Gurdjieff introduziu a ideia no Ocidente de que o homem é uma máquina... Quando Gurdjieff disse, pela primeira vez, que o homem é uma máquina, foi um choque para muitas pessoas. Mas ele estava dizendo a verdade. É muito raro o homem estar consciente. Em toda uma vida de 70 anos, se o indivíduo viver uma vida denominada comum, não vai reconhecer sequer sete momentos de consciência em toda ela. E mesmo que reconheça os sete momentos, ou menos, esses serão apenas acidentais. Por exemplo, ele pode distinguir um momento de consciência caso alguém apareça de repente e coloque um revólver em sua cabeça. Nesse momento, seu pensamento, seu raciocínio habitual, estanca. Por um momento se torna consciente, uma vez que se trata de algo tão perigoso que ele não pode permanecer adormecido como de hábito. Em algumas situações perigosas, as pessoas se tornam conscientes. Caso contrário, permanecem profundamente adormecidas. São perfeitamente hábeis em fazer suas coisas mecanicamente. Basta ficar à beira da estrada e observar as pessoas, para ser capaz de ver que todas estão andando enquanto dormem. São todos sonâmbulos. Assim como você. Dois vagabundos foram presos e acusados de um assassinato cometido no bairro. O júri os considerou culpados e o juiz os condenou a ter seus pescoços pendurados até a morte e até que Deus tivesse piedade de suas almas. Os dois se deram muito bem até a chegada da manhã do dia marcado para a execução. Enquanto estavam sendo preparados para a forca, um se virou para o outro e disse: – Droga, não sei onde ando com a cabeça. Não consigo colocar meus pensamentos em ordem. – Droga, não sei onde ando com a cabeça. Não consigo colocar meus pensamentos em ordem. Ora, não sei nem que dia da semana é hoje. – Hoje é segunda-feira – disse o outro vagabundo. – Segunda? Meu Deus! Que maneira mais podre de se começar a semana! Basta que o homem observe a si mesmo. Mesmo à beira da morte, as pessoas continuam a repetir antigos padrões habituais. Agora não vai mais haver nenhuma semana, pois foi chegada a manhã em que eles devem ser enforcados. Mas basta o velho hábito de alguém dizer que é segunda-feira e o outro então comenta: “Segunda? Meu Deus! Que maneira mais podre de se começar a semana!” O homem reage. É por isso que os sufistas dizem que o homem é uma máquina. A menos que ele comece a responder, a menos que se torne responsável... A reação é gerada do passado, as respostas são produzidas no momento presente. A resposta é espontânea, enquanto a reação é apenas um velho hábito. Basta o homem observar a si mesmo. Sua mulher lhe diz algo: então, seja lá o que você tiver dito, deve observar e ponderar sobre isso. É apenas uma reação? E ficará surpreso: 99% dos seus atos não são atos, pois não são respostas, e sim reações meramente mecânicas. Apenas mecânicas. Isso acontece constantemente: o homem diz a mesma coisa e sua mulher reage da mesma forma e, depois, ele reage, e isso termina na mesma coisa novamente. Ele sabe disso, ela sabe disso. Tudo é previsível. Eis um exemplo: – Papai – disse o menino –, como as guerras começam? – Bem, filho – começou o pai –, digamos que os Estados Unidos tenham se desentendido com a Inglaterra... – Os Estados Unidos não se desentenderam com a Inglaterra – interrompeu a mãe. – Quem disse que eles se desentenderam? – disse o pai, visivelmente irritado. – Eu estava apenas dando um exemplo hipotético ao garoto. – Ridículo! – exprimiu a mãe, bufando. – Você vai colocar todo tipo de ideia errada na cabeça dele. – Ridículo, nada! – contra-atacou o pai. – Se ele lhe der ouvidos, nunca vai ter ideia nenhuma na cabeça dele. Assim que o estágio de lançar pratos se aproximou, o filho se pronunciou mais uma vez: – Obrigado, mãe. Obrigado, pai. Nunca mais vou precisar perguntar sobre como as guerras começam novamente. O homem deve apenas observar a si mesmo. As coisas que está fazendo, ele já as fez muitas vezes. As maneiras como ele reage são as mesmas de sempre. Na mesma situação, ele faz sempre a mesma coisa. Se está se sentindo nervoso, pega um cigarro e começa a fumar. É uma reação, pois sempre que se sente nervoso faz exatamente isso. O homem é uma máquina. É apenas um programa embutido nele: ele se sente nervoso, as O homem é uma máquina. É apenas um programa embutido nele: ele se sente nervoso, as mãos vão para dentro do bolso, o pacote vem para fora. É quase como uma máquina de fazer coisas. Ele tira o cigarro, coloca o cigarro na boca, acende-o, e isso tudo ocorre mecanicamente. Isso acontece milhões de vezes, e ele está refazendo isso novamente. E cada vez que a ação é repetida, ela se fortalece, e a máquina fica mais mecânica e se torna mais hábil. Quanto mais o indivíduo faz isso, menos consciência é preciso para realizá-la. É essa a razão por que os sufistas afirmam que o homem funciona como uma máquina. A menos que ele comece a destruir esses hábitos mecânicos... Por exemplo, seria interessante que as pessoas fizessem algo exatamente ao contrário do que costumam fazer sempre. Faça uma experiência com o exemplo a seguir. O homem chega em casa, está com medo, afinal está atrasado como sempre, e sua esposa estará lá pronta para brigar. Ele, por sua vez, está planejando como responder, o que dizer, coisas do tipo: havia muito trabalho no escritório, e por aí vai. E ela sabe tudo o que ele está planejando, e ele sabe o que vai dizer se ela perguntar por que chegou tarde. E ele sabe que, se disser que está atrasado porque havia muito trabalho, ela não vai acreditar. Nunca acreditou. Ela pode já ter verificado, ou seja, pode ter ligado para o escritório, pode já ter investigado onde ele estava. Mas, mesmo assim, esse é apenas um padrão. Hoje, ele vai para casa e se comporta de forma totalmente diferente. Quando a esposa lhe pergunta: “Onde você estava?”, ele diz: “Eu estava com uma mulher, fazendo amor.” Depois, veja o que acontece. Ela vai ficar chocada! Não vai saber o que dizer, nem mesmo conseguirá encontrar palavras para se expressar. Por um momento, ficará completamente perdida, porque nenhuma reação e nenhum padrão antigo se aplicam a essa nova atitude. Ou, talvez, ela tenha se transformado tanto em uma máquina que talvez diga: “Não acredito em você!”, assim como nunca acreditou. “Você deve estar brincando!” Todo dia ele vem para casa... Outro exemplo: um psicólogo dizia para seu paciente: “Hoje, quando for para casa...”, pois o paciente estava reclamando sem parar, coisas do tipo: “Sempre tenho medo de ir para casa. Minha esposa parece tão infeliz, tão triste, sempre em desespero, que meu coração começa a afundar. Quero fugir de casa.” O psicólogo disse: – Talvez você seja a causa disso. Faça algo: hoje, leve flores, sorvete e doces para sua mulher e, quando ela abrir a porta, dê-lhe um abraço e um bom beijo. Depois, comece a ajudá-la imediatamente: limpe a mesa, as panelas e o chão. Faça algo absolutamente novo que nunca tenha feito antes. A ideia era atraente, e o homem fez a experiência. Foi para casa. No momento em que a mulher abriu a porta e viu as flores, o sorvete e os doces, e o homem radiante que nunca foi de sorrir, abraçá-la, não pôde acreditar no que estava acontecendo! Entrou em um choque total! E teve que olhar de novo. E quando a beijou e logo começou a limpar a mesa, e foi para a pia e começou a lavar a louça, a mulher começou a chorar. Quando saiu da cozinha, perguntou a ela: – Por que está chorando? Ela respondeu: – Você ficou louco? Sempre suspeitei que mais cedo ou mais tarde você enlouqueceria. Agora aconteceu. Por que não vai a um psiquiatra? Os sufistas adotam esses artifícios. Eles dizem: “Aja de forma totalmente diferente, não apenas os outros hão de ficar surpresos, mas você também vai se surpreender. E apenas nas pequenas coisas. Por exemplo, você costuma andar depressa quando está nervoso. Então, não ande depressa, vá bem devagar, e observe. Vai se surpreender com o quanto isso é estranho, e sua mente totalmente mecânica logo vai dizer: ‘O que está fazendo? Você nunca fez isso!’ E ao andar devagar, você vai ficar surpreso com o fato de o nervosismo desaparecer, pois você introduziu algo novo.” Esses são os métodos vipassana e zazen (técnicas de meditação budista). Ao se aprofundar neles, vai perceber que os fundamentos são os mesmos. Para fazer o caminhar vipassana é preciso caminhar mais devagar do que nunca antes, tão devagar de um jeito absolutamente novo. O sentimento como um todo é novo, e a mente reativa não pode funcionar. Não pode funcionar porque não tem nenhum programa para isso, simplesmente para de funcionar. É por isso que em vipassana a pessoa sente um profundo silêncio ao observar a respiração. Todo mundo sempre respira, mas nunca observa a respiração. Isso é algo novo. Quando a pessoa se senta em silêncio e apenas observa a respiração, entrando, saindo, entrando, saindo, a mente fica confusa: o que está fazendo? Isso se deve ao fato de nunca ter feito isso. É tão novo que a mente não pode fornecer uma reação imediata para tal. Então, cai no silêncio. O fundamento é o mesmo. Se é sufista, budista, hindu ou muçulmano, não importa. O importante é ir fundo nos fundamentos da meditação, pois a essência é uma só: desautomatizar o ser humano. Gurdjieff costumava fazer coisas um tanto bizarras a seus discípulos. Ao surgir alguém que fosse vegetariano, ele diria: “Coma carne.” Agora, o fundamento é o mesmo, só que esse homem é um pouco demais de si mesmo, um pouco excêntrico. Ele diria: “Coma carne.” Pois bem, observe um vegetariano comendo carne. O corpo quer jogar a carne fora e ele quer vomitar, e a mente está confusa e perturbada, e ele começa a transpirar, pois a mente não tem como lidar com isso. É o que Gurdjieff queria ver, a maneira como o indivíduo reagiria a uma nova situação. Para o homem que nunca tomara nenhuma bebida alcoólica, Gurdjieff diria: “Beba. Beba o máximo que puder.” E para o homem que andava bebendo álcool, Gurdjieff diria: “Pare por um mês. Pare completamente.” Ele quis criar alguma situação tão nova para a mente que ela simplesmente se calasse, não tivesse resposta para isso, nenhuma resposta pronta. A mente funciona como um papagaio. É por isso que os mestres zen batem nos discípulos às vezes. Trata-se do mesmo fundamento. Agora, quando a pessoa vai até um mestre não espera que um Buda vá bater nela, ou espera? Quando se vai até o Buda, vai-se com a expectativa de que ele vai ser piedoso e amoroso, vai despejar amor e colocar a mão sobre sua cabeça. No entanto, esse Buda lhe bate, pega o cajado e lhe bate forte na cabeça. Agora, não é chocante um Buda bater no discípulo? Por um momento a mente para, não tem ideia de como proceder, não funciona. E a reação de não funcionamento é o começo. Às vezes, uma pessoa se torna iluminada, apenas em função de o mestre ter feito algo absurdo. As pessoas têm expectativas, vivem por meio de expectativas. Não sabem que os mestres não se enquadram em nenhum tipo de expectativa. A Índia foi acostumada a Krishna e Rama, e pessoas como essas. Depois, veio Mahavira, que ficava nu. Não se pode imaginar Krishna despido, pois sempre usou roupas bonitas, tão bonitas quanto possível. Foi uma das pessoas mais belas de todos os tempos, e costumava usar ornamentos feitos de ouro e diamantes. E então, de repente, surge Mahavira. O que Mahavira pretendia ao se apresentar nu? Chocou o país inteiro, e ajudou muitas pessoas devido a esse choque. Cada mestre tem de decidir como causar choque. Ora, fazia séculos que não conheciam um homem como eu na Índia. Portanto, qualquer coisa que eu faça e qualquer coisa que eu diga é um choque. O país inteiro entra em choque, um grande arrepio percorre a espinha de todo o país. E eu realmente aprecio isso, pois as pessoas não podem pensar... Eu não estou aqui para satisfazer as suas expectativas. Se eu as satisfazer, nunca serei capaz de transformá-lo. Estou aqui para destruir todas as suas expectativas, estou aqui para provocar choque. E nessas experiências que chocam sua mente vai parar. E você não vai ter a capacidade de entender do que se trata, e é nesse momento que algo novo entra em sua mente. É por isso que, de vez em quando, eu digo algo que as pessoas acham que não deve ser dito. Mas quem são elas para decidir o que alguém deve ou não deve dizer? E é natural que, quando algo vai contra as suas expectativas, elas reajam de imediato de acordo com seus antigos condicionamentos. Aqueles que reagem de acordo com seus antigos condicionamentos deixam de compreender o ensinamento. Aqueles que não reagem de acordo com os antigos condicionamentos ficam em silêncio, entram em um novo espaço. Ao falar com meus discípulos, estou tentando bater neles, de uma forma ou de outra. É tudo intencional. Quando critico Morarji Desai (político indiano), não se trata tanto de Morarji Desai. É muito mais sobre o Morarji nas pessoas, pois elas têm o político dentro se si. Ao bater em Morarji Desai, bato no Morarji Desai que existe nas pessoas, o político dentro delas. Todo mundo tem o político dentro de si. O político significa o desejo de dominar, o desejo de ser o número 1. O político significa ambição, a ambição da mente. Quando eu atinjo Morarji Desai, as pessoas se sentem atingidas, e começam a pensar: “Esse homem não pode ser uma pessoa realmente iluminada, pois, se o fosse, por que deveria bater em Morarji Desai de forma tão rude?” Elas estão simplesmente tornando o ato racional. Elas não têm nada a ver com Morarji Desai: estão salvando seu próprio Morarji Desai interior, estão tentando proteger seu próprio político. Eu não tenho nada a ver com o pobre Morarji Desai. O que eu posso ter a ver com ele? Eu não tenho nada a ver com o pobre Morarji Desai. O que eu posso ter a ver com ele? Entretanto, tenho tudo a ver com o político que existe dentro de você. Os sufistas dizem que o homem é uma máquina, porque o homem apenas reage de acordo com os programas com os quais foi alimentado. Basta o indivíduo começar a se comportar de forma receptiva e pronto para dar respostas para que, então, não seja uma máquina. E quando o indivíduo não é uma máquina, é um homem. Daí, então, nasce o homem. Olhe, fique alerta, observe, e continue a deixar para trás todos os padrões reativos dentro de si. A cada momento, tente responder à realidade, não de acordo com a ideia pronta dentro de si, e sim de acordo com a realidade como ela é lá fora. Responda à realidade! Responda com consciência total, mas não com a mente. E então, quando você responde de forma espontânea, e não através da reação, nasce a ação. A ação é bela, a reação é feia. Apenas um homem que tem consciência é que age, pois o homem com falta de consciência só reage. A ação liberta, enquanto que a reação continua a criar as mesmas correntes e a fazê-las mais grossas, mais duras e mais fortes. Viva uma vida de resposta e não de reação.

Fonte: O Livro dos Homens - Osho